Nossas pessoas estão ficando enlatadas

O processo de aprendizagem no nosso país precisa melhorar, e olha quem pode ajudar nisso? Você!

De onde veio isso? 

Em uma mesa de café conversando com Graziela e Marcelo, compartilhei frustrações nas minhas incursões e entrevistas com pessoas ligadas na educação de crianças. Nesse meio do caminho cheguei a triste conclusão que a minha filha de 10 anos estava passando pelas mesmas dificuldades e frustrações que eu passei na escola 30 anos antes. Desse desabafo veio o convite de participar do BS Kids, uma ação deles com o Black Sheep Project.

Lá tive a oportunidade de conduzir um painel com o tema “Atenção: nossas pessoas estão ficando enlatadas“. Fiz esse painel junto com Carolina Cesa, Luciano Braga e Rafael Urquhart discutindo como trazer mais escuta, criatividade e fluxo para dentro deste ambiente que é tão tradicional e que precisa de mudanças. 

E deste painel veio a oportunidade de responder algumas perguntas pro Blog Maternar, sobre o tal “enlatamento”. Deixo aqui as perguntas que vieram, e meu texto de resposta, que escrevi durante um vôo Porto Alegre-São Paulo. Qualquer coisa posso dizer que estava viajando quando escrevi isso. 😛

Como fugir da educação enlatada?

No caso de uma criança, os temas de casa não podem ser o único foco. As crianças precisam ter espaço para experimentar e criar, a partir de um problema ou desafio. Os trabalhos devem fazer uso de diferentes mídias e artes. Não somente texto. Com isso estamos abrindo as possibilidades de entendimento mais amplo do mundo. Nesse experimentar falo também de testar diferentes esportes, instrumentos musicais, diferentes formas de expressão, seja com desenho, dança, culinária, poesia. Alguém até pode falar que as escolas tem isso… mas o alvo por vezes está errado. Não estamos formando pessoas pra que elas passem em alguma prova de vestibular/enem. Lembro que ler matérias, buscando escolher uma escola para minha filha, e me deparar em geral com tabelas comparando posicionamento das escolas no enem. 

Estamos desenvolvendo pessoas, e deveria ser nosso princípio garantir que elas conseguem se desenvolver em diferentes estilos mas que possam ter a chance de se aprofundar em algo. Exemplo desenho. Como atingir os objetivos da escola padrão com alguém que quer se expressar mais pelo desenho? Vai dar mais trabalho aos professores e vai ser necessário mais tempo para sincronia e apoio entre alunos. Não estou falando de esquecer e só trabalhar com o que a criança quer, até porque precisamos aprender a lidar com frustrações. O pedido aqui é deixar um pouco de lado o ensino massivo, e pensar como podemos melhorar o protagonismo e atuar de modo mais imersivo. 

E ah. Falando de adultos. O mesmo vale para quem já trabalha. No seu trabalho atual você utiliza algumas habilidades que são do seu interesse. Onde você desenvolve outras? É o mesmo processo. Como podemos ter no trabalho espaço para desenvolver mais habilidades? De tentar algo novo no que já fazemos? Quais as possibilidades de sermos parte de novos projetos ou grupos que discutam assuntos diferentes do nosso dia a dia? 

Por exemplo, nossos mestres. Eles tem toda capacidade, conhecem ferramentas, conhecem estratégias de aprendizagem, mas eles estão enlatados por um padrão de ensino imposto pela instituição ou pior, por um professor titular que empurra os mesmos temas todos os anos. As contas para pagar, falta de valorização financeira e por vezes a falta de um ambiente seguro psicologicamente impede estes mestres de tentarem algo diferente ou de simplesmente questionar o padrão atual. O problema é mais profundo. 

Mesmo que a escola seja esse modelo, como os pais com filhos matriculados em escolas tradicionais podem (na outra ponta) contornar esse problema?

Ter algo que você faça com o seu filho que não seja perguntar sobre o tema ou cobrar alguma nota. Eu tenho um lembrete no meu celular chamado “Brincar” que todo dia me pede pra ter espaço para estar com meus filhos. Não estou aqui falando de atividades de rotina como preparar janta, levar pra escola ou colocar pra dormir. Para informação, já fiquei 2 semanas sem brincar com meus filhos.

Quando tomei consciência disso, claro, depois de ficar assustado, passei a buscar mais cadência nestes momentos de estar junto. A atividade deve importar para quem estiver neste momento. Pode ser desenhar, ou tentar criar uma empresa de slime, mas sempre lembrar desse detalhe: tem que importar para todos que participam. Um exemplo é tentar conectar o que vem sendo trabalhado em sala de aula com algo da vida real. 

Qual papel dos pais na formação dos filhos? Muitos delegam para a escola e acreditam ser só dela a responsabilidade. Como os pais podem afetar a educação dos filhos agindo assim? O quanto essa “poda” impacta o  mercado de trabalho no futuro?

Essa falta de cuidado por vezes se transforma em “pais que dizem sempre sim”, e não sabem o mal que estão causando para as crianças. Precisamos de seres pensantes, que saibam argumentar e ponderar.Essa ausência que pode ser em excesso de poda ou excesso de “sim”, gera adultos que desistem fácil, que não conseguem se comprometer com um objetivo, que esperam pelo sim ao invés de ter clareza que o normal é dar errado. Devemos celebrar os acertos e vitórias mas entender também nossas limitações e buscar aprendizados quando algo não acontece como era planejado. Afinal… era um plano certo? A realidade é o que acontece conosco depois que algo acontece, como aprendi na filosofia estoicista. 🙂 

Sobre o papel dos pais. Os pais deveriam ter além do brincar, alguma atividade de escuta. Vejo que por vezes ouvimos pessoas que falam conosco mas não estamos escutando o que elas estão nos dizendo. Queremos julgar rápido para seguir em alguma atividade ou minimizar alguma dor que nem temos ideia do que significa. Todos nós teremos estes momentos onde estamos deixando de cuidar de uma relação. E aí precisamos ter algum momento para tomar consciência disso. Muitos só chegam no ponto de querer criar esse momento de escuta quando a dívida já está muito alta. 

E pra isso precisamos de tempo. Precisamos de espaço interno para ter estas conversas. Precisamos de paciência. Precisamos saber lidar com frustração. Seja individualmente ou em família. Precisamos poder dizer pros nossos filhos que estamos tristes e não estamos em um momento legal para conversar. Precisamos ser vulneráveis, com diz a autora Brené Brown

Quando gritamos, estamos querendo escuta. Quando alguém grita, está pedindo ajuda. O pedido de silêncio é uma opção, mas quem sabe a gente gasta um pouco mais de escuta e tenta ver mais da necessidade por trás do grito? Isso que escrevo tem relação com “Comunicação não violenta”, um assunto riquíssimo e que deveria ser obrigatório na vivência escolar.

E a partir disso nos ajustamos e vamos novamente, em contínua experimentação, ganhando consciência da nossa comunicação e dos nossos sentimentos em determinada relação. 

Como escolas tradicionais podem ser mais flexíveis na sua visão? 

Trabalhando segurança psicológica. Os alunos tem medo de dizer que não sabem algo. Não percebem um ambiente seguro pra dizer “não sei”. Esse problema cresce junto com as crianças. Outra: as escolas podem conhecer mais sobre habilidades que as crianças possuem ou querem desenvolver. E usar isso como alavanca. Deixar que estas crianças usem estas habilidades e apóiem o desenvolvimento de outras crianças. O professor deve conduzir o aprendizado mais que ser a única voz. Precisamos de mais abertura, melhores perguntas e momentos de reflexão no dia a dia das escolas. 

Outra visão que tenho, se o foco da escola é pensar em ferramentas, que a estrutura de aprendizagem tenha pelo menos estas três em funcionamento:

  • entendimento de projetos somado a importância de pequenas vitórias. A síndrome do estudante acontece porque não temos espaço de troca e revisão frequente. Se o objetivo de um trabalho ou avaliação é que todos aprendam, porque deixamos criar competições com o nosso cérebro e memória? Porque evitamos colaboração em sala de aula? Se um colega pode me ensinar porque não posso ter espaço para aprender com quem quer ensinar? 
  • espaço de escuta. Aqui entra a Comunicação não violenta. Como podemos desenvolver espaços de escuta? Hoje adulto, venho aprendendo a fazer este tipo de processo e vejo como seria interessante poder ter um espaço onde eu possa falar o que sinto e penso sem ser julgado, mas sim escutado. 
  • visão prática. Se podemos mostrar como algo funciona na prática, vamos mostrar! Experiências não é somente nas feiras de ciências. Deveria ser todo dia. Que perguntas respondemos hoje? Quais falhas tivemos que geraram aprendizado? O que vamos tentar amanhã? Que profissionais podem participar da aula para falar sobre algo? Aqui os pais podem entrar, ex alunos e assim vai. 

Agradecimentos ao blog Maternar pela oportunidade de refletir sobre estes assuntos. Matéria no Maternar, com partes deste texto acima e também reflexões da Carolina Cesa: https://maternar.blogfolha.uol.com.br/2019/07/29/para-especialistas-em-educacao-escolas-enlatam-nossos-filhos/

E agora?

O “Desenlatar” é um dos projetos paralelos que estou desenvolvendo. Se você se interessa, entra neste grupo e participa das discussões e rodas de conversa virtuais e presenciais. Grupo no facebook: https://www.facebook.com/groups/desenlatar/

— Daniel Wildt

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s